Visão em perspectiva sobre a Venezuela

/ publicada em 10 de dezembro de 2007, na seção Opinião

Hilton CoelhoLuís Antônio de Araújo Costa* e Hilton Coelho**

 

A Venezuela nos últimos cinco anos têm se tornado alvo do interesse midiático como poucas vezes o fora em nossa história. Não poderia ser diferente, dada a profundidade das transformações sociais em curso e a consequente radicalização da luta política em ambos os pólos aglutinadores; Chávez e o seu projeto de Socialismo do século XXI de um lado, e as oligarquias anteriormente detentoras absolutas do poder de Estado, incluindo aí a sua principal locomotiva econômica, a companhia petrolífera PDVSA, por outro.
A imparcialidade em assuntos relativos à realidade social e aos fatos políticos possui duas dimensões: no melhor dos casos, é uma utopia, um desejo positivo que privilegia a racionalidae e o bem comum, em detrimento das paixãos, dos desejos e dos interesses. Entretanto, e na maioria das vezes funciona como uma cortina que visa esconder os reais motores da crítica, ou seja: a defesa de interesses opostos e receorrentemente antagônicos, mascarando-se por detrás de pautas políticas ocasionais prontas a serem esquecidas na próxima esquina.
Tamanha radicalização da luta política na Venezuela tem sido a marca deste período, estrapolando as fronteiras nacionais e se refletindo nas diversa formas, cada vez mais distantes e incompatíveis, de como os fatos são interpretados, desde as suas raízes, até os seus desdobramentos conjunturais por todos os profissionais da política, sejam eles militantes, cientistas ou jornalistas.
Esta é uma característica comum a todos os processos revolucionários de que se têm notícia, independente das formações históricas, programas, latitudes ou composições étnico-raciais. A equidistância nesses casos é impossível portanto, caro leitor, desconfie de todo e qualquer discurso que se pretenda imparcial, sempre, e em todos os casos, mas principalmente quando este diz respeito à atual Revolução Bolivariana.
O desafio real é não permitir que a tomada de posição sincera e politizadora em relação ao processo, submeta o senso crítico, a independência profissional e a integridade dos valores mais altos que se pretende defender. Tomar posição é bom, nos permite redescobrir nossa história e nossa realidade de outros pontos de vista até então inusitados, ou tidos como insensatos. Ser chamado a participar diretamente através de plebiscitos e referendos é uma ótima forma de estimular a consciência política individual sobre as questões mais relevantes, além de consolidar uma prática social efetivamente democrática. Os resultados que saem das urnas, em geral reafirmam a vontade soberana da maioria e permitem que os protagonistas revejam suas posições e acertem o passo com os interesses efetivos de suas bases populares.
Identificar-se com o que ocorre no país vizinho hoje permite nos re-apaixonar pela grande política, aquela que debate, critica e constrói projetos de sociedade para serem implementados na prática, não a baixa política que estamos acostumados a ver, onde o campeão da ética de ontem, é aquele que protege o indecoroso de hoje, para manter o imposto indecente de amanhã.
Aqueles que na Venezuela se inspiram em Bolívar, o fazem de forma honesta, pois este lutou pela liberdade de seu povo, assim como vários outros o fizeram na América do Sul, especialmente Cuba, aonde a grande inspiração para sua Revolução de 1959 foi José Martí, que pegou em armas contra a monarquia espanhola.
O projeto inspirador da Revolução Francesa de 1789, sintetizado no lema Liberdade, Igualdade e Fraternidade, pretendia construir uma sociedade de cidadãos portadores de direitos universais garantidos pelo Estado e não de súditos. Estava alicerçado na pequena proriedadade da terra e no combate ao latifúndio de herança feudal, no caso das Américas, escravocrata.
Em perfeita sintonia com a nossa condição de periferia do capitalismo, Bolívar defendia a construção de uma Nação soberana face às metrópoles européias permitindo que os povos até então massacrados, vilipendiados e saqueados pelas monarquias, comerciantes e banqueiros de além-mar, construíssem sua história com suas próprias forças.
Como é de conhecimento de todos, nada disso se tornou realidade em nenhum dos países da América Latina. O projeto de Bolívar foi condenado ao esquecimento eterno pelas classes dominantes locais, mais interessadas em perpetuar as condições vantajosas oriundas da eternização da miséria da imensa maioria de negros, índigenas, brancos pobres e mestiços em geral.
Pois bem, para desespero e angústia de todos/as aqueles que se satisfazem com a baixa política, que fazem o discurso de que não há possibilidade de mudança real em nossas sociedades e que nada mais há para ser feito, além de se submeter aos interesses do capital especulativo financeiro dos países do centro do capitalismo, o povo venezuelano têm algo a dizer:
O projeto dos Libertadores da América está de volta, porém renovado pelas diversas revoluções e lutas populares que ocorreram ao longo do século XXI, nos cinco continentes, com suas histórias, acertos e equívocos. A história está viva! Qual projeto de Nação você quer, para você e seus filhos? Com a palavra, o povo latinoamericano…

*Luís Antônio de Araújo Costa
Assessor de Relações Internacionais da Prefeitura de Belém de 2002/2004
Mestrando de Ciências Sociais da UFBA
Militante do PSOL/BA
**Hilton Coelho
Mestre em História
Ex-Candidato ao Governo do Estado PSOL/BA